A máfia da Sudam e a morte de Dorothy Stang

Quadrilha que assaltou os cofres da Sudam também envolvida no assassinato da missionária Dorothy Stang, em Anapu. Fotos: Divulgação.

Investigações da Polícia Federal confirmaram denúncia feita pelos pistoleiros Rayfran das Neves Sales, o “Fogoió”, e Clodoaldo Carlos Batista, conhecido como “Eduardo” – réus confessos do assassinato da missionária norte-americana Dorothy Stang, no município de Anapu. Os assassinos denunciaram a existência de de um “consórcio” integrado por madeireiros, fazendeiros e grileiros – que teria financiado a morte da missionária.

O alvo preferencial das investigações da foram empresários com negócios em toda a área de influência da rodovia Transamazônica, no Estado do Pará, denunciados pela religiosa em carta enviada ao então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, e em depoimento secreto de irmã Dorothy à CPI da Terra, presidida pelo então senador Álvaro Dias (PSDB-PR). Vários dos acusados pela missionária, segundo a Polícia Federal, foram indiciados nos inquéritos abertos pela PF para apurar fraudes com incentivos fiscais do Finam em projetos aprovados pela Sudam, mas que nunca foram implantados.

Dentre os integrantes da “máfia da Transamazônia” investigados estava o fazendeiro Regivaldo Galvão, o “Taradão”, que teria vendido por R$ 600 mil as terras griladas por Vitalmiro Bastos de Moura, o “Bida”, apontado como principal mandante do assassinato da irmã Dorothy Stang. Outro envolvido foi o fazendeiro Laudelino Délio Fernandes Neto, um dos grandes fraudadores de projetos da Sudam na região, responsável pela invasão dos lotes 56 e 58 (de 3 mil hectares cada um) da Gleba Bacajá, município de Anapu, onde desmatou – com corte raso – e queimou cerca de 2 mil hectares de terra, transformando a floresta nativa em pasto para gado.

Documento em mãos da Polícia Federal assinado por irmã Dorohy Stang em maio de 2004 acusou Regivaldo Galvão de promover a grilagem de terra e a depredação do patrimônio público em Anapu. Os lotes 54, 55 e 57 – de 3 mil hectares cada um – também foram alvos de grande derrubada no ano de 2000. “Desta vez, os responsáveis foram os fazendeiros Marcos Oliveira e Regivaldo Pereira Galvão, também conhecido por ‘Taradão’, que sabidamente esteve envolvido nos desvios de verba da Sudam”, acusou na época a religiosa Dorothy Stang.

“Atualmente (maio de 2004), ‘Taradão’ está com várias equipes fazendo grandes derrubadas, justamente onde o povo do PDS (Projeto de Desenvolvimento Sustentável) está tentando firmar-se na terra para a concretização do PDS. O executor do Incra em Altamira, Bruno Kemper, já o chamou e o advertiu a não prosseguir na derrubada, mas ‘Taradão’ continua desmatando sistematicamente. Neste lote há muitas famílias, muitas crianças aguardando a ação do Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para tornar realidade o PDS, expulsando o grileiro e seu bando da área”, pregava irmã Dorothy.

Outro fazendeiro denunciado por irmã Dorothy ao Ministério Público Federal foi Danny Gutzait, que tentou expulsar famílias já cadastradas pelo Incra dos lotes 124 e 126 em Anapu. A intenção era desocupar a área para que Gutzait lá implantasse um projeto incentivado pela Sudam. À época (1999), graças à intervenção do Ministério Público Federal, conseguiu-se demonstrar o interesse da União e deslocou-se a competência para a Justiça Federal, onde o Incra enfim demonstrou a titularidade da área.

Expulsão

“Insatisfeito, no mês de novembro de 1999, Dani Gutzeit, com 50 homens armados, conseguiu expulsar 40 posseiros dos lotes 126 e 128 da Gleba Belo Monte. O povo organizado retomou a área em dezembro e comunicou a todos os órgãos competentes, sem obter nenhum retorno. No mês de março de 2000, Dani Gutzeit colocou pistoleiros na entrada do travessão, destruiu as casas e jogou capim em todas as roças dos agricultores. Em 12 de março de 2002, o povo reorganizou-se e retomou os lotes”, relata irmã Dorothy Stang em documento enviado ao Ministério Público pelas comunidades de Anapu atingidas pela ação da Máfia da Transamazônica.

Relata ainda irmã Dorothy no documento: “Em 24 de junho de 2002 tentou-se novamente expulsar os posseiros com ajuizamento de nova ação possessória em nome do fazendeiro Genibaldo Oliveira do Nascimento, que foi novamente enviada para a Justiça Federal, porque era área do patrimônio do Incra. Em outubro de 2003, Genibaldo Oliveira do Nascimento vendeu o lote 126 para Luciano Fernandes. O adquirente expulsou todas as famílias da área, queimou as casas e cercou a terra, pôs uma cancela cercada de arame dificultando o acesso ao lote 128, intensificou a plantação de capim e por último abriu uma pista para pouso de avião. E tudo isso está acontecendo no coração do PDS”.

Algumas invasões de terra em Anapu, principalmente no lote 29, foram facilitadas pela própria ação de funcionários do Incra de Altamira, liberando para a invasão dos fazendeiros glebas de 500 hectares dentro do lote de 3 mil hectares. Essa área, onde há intensa plantação de capim, margeia o rio Anapu e atinge diretamente a Reserva Indígena Trincheira-Bacajá.

Tudo registrado para se comprovar que a história não se apaga com “canetada” de quem quer que seja.
* Jornalista paraense. A reportagem foi publicada originalmente pelo jornal O Liberal, de Belém do Pará. A matéria rendeu ao autor os prêmios Embratel e AMB de Jornalismo, da Associação dos Magistrados Brasileiros, que congrega os juízes e juízas de 1a Instância de todo o Brasil.

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