

O jornalista e escritor Zuenir Ventura, nosso mestre Zu, partiu hoje, 22 de setembro, aos 95 anos, mas viverá para sempre na minha memória. Sua vida, como o ano de 1968, que celebrizou em livro de referência sobre os anos de chumbo da ditadura militar, não terminou.
Sempre vou lembrar que em 1991, trabalhando como repórter especial da sucursal do Jornal do Brasil, em Brasília, estive frente a frente com um dos maiores arquivos da ditadura militar (1964-1985), colecionado pelo tenente-coronel Sebastião Rodrigues de Moura, codinome Maior Curió, que se vangloriava de ter sido um dos principais exterminadores da chamada Guerrilha do Araguaia, movimento armado, comandado pelo Partido Comunista do Brasil (PC do B), que sonhava derrubar, no início dos anos 70, o regime militar a partir de bases guerrilheiras montadas na região de influência do Rio Araguaia, na fronteira do Estado do Pará com o hoje Estado do Tocantins, na época ainda Goiás, numa região mais tarde conhecida como “Bico do Papagaio”, tendo como referencias São Geraldo do Araguaia, do lado do Pará, e Xambioá, no Tocantins.
Sebastião Curió me procurou oferecendo seus arquivos para publicação com exclusividade no JB, mas pedia uma contra partida em dinheiro – uns R$ 20 mil, atualizados – que seriam gastospara custear uma operação em um antigo “bate-pau”- um guia do Exército no Araguaia, que estaria com um câncer em estado avançado.
Falei para o coronel Curió que não pagava para fazer matéria jornalística, mas me comprometi a levar seu pleito ao diretor da sucursal do JB em Brasila, jornalista Etevaldo Dias, e assim o fiz.
Etevaldo Dias e o editor Arthur Pereira foram comigo até a residencia de Curió, no Lago Sul – zona nobre de Brasília – e puderam ver in loco o material que Curió oferecia: fotos de guerrilheiros – inclusive a do depois deputado federal pelo PT, José Genoino -; relatórios das Forças Armadas sobre operações de combate aos 69 guerrilheiros do PC do B, mapeados pelo Centro de Informações do Exército (CIE) e pelo Serviço Nacional de Informações (SNI); detalhes sobre a operação batizada de “Manobrão”, comandada pelo general Antônio Bandeira, com uma fantástica mobilização de tropas, e uma informação que era a azeitona na empada: A ordem emanada do alto comando das Forças Armadas, já com o Ato Institucional Número 5 (AI-5) em vigor, para que todos os guerrilheiros aprisionados fossem mortos. “Sem prisioneiros”, resumiam as ordem do Alto Comando do Exército.
A questão ética sobre o pagamento pela documentação foi repassada para a direção da empresa Jornal do Brasil no Rio de Janeiro e o então presidente do JB, Manuel Francisco do Nascimento Brito, decidiu enviar a Brasília para analisar a documentação e a proposta financeira um jornalista acima de qualquer suspeita: Zuenir Ventura.
Foi aí que conheci Zuenir Ventura pessoalmente. Já havíamos conversado algumas vezes sobre o Acre, de Chico Mendes, e eu – como a maioria dos jornalistas do país – o admirava também por “1968, o ano que não terminou”, um livro espetacular sobre a ditadura.
Fomos todos para a mansão de Curió – Zuenir Ventura, Etevaldo Dias, Arthur Pereira e eu – passamos mais de duas horas analisando a documentação e, mais tarde, Zuenir Ventura deu sua sentença: Iria recomendar para a direção do Jornal do Brasil não pagar o preço o exigido pelo tenente-coronel Sebastião Curió para liberar seu arquivo.
“Curió é um torturador”, resumiu Zuenir Ventura.
Anos depois, em 1996, vi o jornal O Globo publicar série de reportagens sobre a Guerrilha do Araguaia e ganhar o Prêmio Esso de Jornalismo.
Mas essa já é outra história.
Descansa em paz, mestre Zuenir Ventura!
Vais fazer falta.

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