Blocos na Foz do Amazonas são destaque em leilão da ANP

Infográfico: (Rodolfo Almeida/SUMAÚMA)

A Bacia da Foz do Amazonas, localizada na chamada Margem Equatorial brasileira, foi um dos destaques do leilão realizado pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) nesta terça-feira (17).

Ao todo, 34 blocos de exploração foram arrematados nas bacias da Foz do Amazonas, Parecis, Santos e Pelotas, totalizando uma área de 28.359,55 km².

Entre os principais arrematantes está a Petrobras, que investiu R$ 139 milhões para adquirir 13 blocos — sendo dez deles na Bacia da Foz do Amazonas e três na Bacia de Pelotas. A gigante estatal liderou a ofensiva na região, considerada uma das mais promissoras do país em termos de potencial petrolífero, mas também uma das mais ambientalmente sensíveis.

Segundo a ANP, o leilão movimentou R$ 989 milhões em bônus de assinatura, com uma previsão mínima de R$ 1,45 bilhão em investimentos durante a fase exploratória. Nove empresas venceram disputas por blocos — duas brasileiras e sete estrangeiras — reforçando o interesse global no potencial energético do Brasil.

A diretora-geral interina da ANP, Patricia Baran, destacou o desempenho das áreas localizadas na Margem Equatorial, onde a Foz do Amazonas está inserida. “Tivemos ágio de quase 3.000% em algumas áreas e concorrência acirrada. O resultado foi bastante positivo e sinaliza a confiança dos investidores na capacidade exploratória do país”, afirmou.
O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, defendeu a inclusão das bacias no leilão como uma forma de descentralizar os ganhos do setor. “Queremos que a riqueza do petróleo chegue a todas as regiões do Brasil, com responsabilidade ambiental, inclusão social e geração de empregos”, disse.

Protestos e críticas marcam evento

Apesar do otimismo do governo e da ANP, o leilão foi marcado por uma série de protestos. A Foz do Amazonas, cuja exploração petrolífera é duramente criticada por ambientalistas, lideranças indígenas e organizações sociais, voltou ao centro do debate sobre os riscos ambientais e sociais da expansão do setor de óleo e gás.
Lideranças do povo indígena Tapayuna, de Mato Grosso, protestaram em frente ao hotel onde o leilão foi realizado, no Rio de Janeiro. “Esse leilão é um ataque ao nosso território. É uma região sagrada, não queremos a exploração”, disse o jovem líder Yaiku Tapayuna.
A Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) também repudiou o certame, com foco especial no Bloco 59, localizado na costa do Amapá, próximo a territórios quilombolas. Em nota, a entidade denunciou o que chamou de “racismo ambiental e estrutural” e criticou a falta de diálogo com as comunidades afetadas.

Na Baía de Guanabara, pescadores e ativistas do Instituto Arayara exibiram faixas com os dizeres “Parem o Leilão do Juízo Final”, acusando o governo de colocar em risco o clima e o modo de vida das populações costeiras. O grupo apontou incoerência na realização do leilão em um ano em que o Brasil sediará a COP30, a conferência climática da ONU.

O especialista em conservação e líder de transição energética do WWF-Brasil, Ricardo Fujii, também se manifestou. “Estamos falando de uma das regiões mais sensíveis do planeta, com ecossistemas únicos como o sistema recifal amazônico e mais de 80% dos manguezais do país. A Petrobras escolheu aumentar sua aposta em áreas de alto impacto e retorno incerto, colocando em risco o futuro climático do país”, alertou.

Foz do Amazonas: riqueza submersa e desafios à vista

A Bacia da Foz do Amazonas é vista por técnicos do setor como a nova fronteira do petróleo brasileiro, mas ambientalistas alertam para os riscos de exploração em uma região de biodiversidade extraordinária, com espécies únicas e áreas pesqueiras fundamentais para a segurança alimentar da população local.

A pressão por licenciamento ambiental vem crescendo desde 2023, quando o Ibama negou um pedido da Petrobras para perfuração na mesma região, apontando falhas nos estudos de impacto ambiental. Com o novo leilão, a estatal retoma sua estratégia na Margem Equatorial, ampliando o debate sobre o modelo de desenvolvimento energético adotado pelo Brasil.

O embate entre promessas de desenvolvimento e proteção ambiental promete se intensificar, especialmente com os olhos do mundo voltados para a Amazônia durante a realização da COP30, em Belém.

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